As provas de concursos da FGV são conhecidas por cobrarem conceitos pouco vistos em provas da ESAF ou do CESPE. Na prova para Fiscal de Rendas da Sec. Est. Fazenda/RJ - 2008, por exemplo, algumas questões de português exigiram conhecimento de conceitos bem específicos; eu diria até que exigiram conceitos semânticos mais conhecidos por quem atua na área de Lingüística. Veja só a questão seguinte:
5. No trecho “O avanço deste não acarreta necessariamente impacto positivo
daquela”, os pronomes demonstrativos exercem, respectivamente, função:
(A) anafórica e catafórica.
(B) catafórica e catafórica.
(C) anafórica e anafórica.
(D) catafórica e anafórica.
(E) dêitica e dêitica.

Bom, o trecho do enunciado da questão é referente a um dos textos expostos na prova. Se o candidato consultasse o texto para entender a que os pronomes “deste” e “aquela” faziam referência, iria ler o seguinte: “(…) A alocação de novos recursos nada tem a ver, em princípio, com o impacto tecnológico. O avanço deste não acarreta necessariamente impacto positivo daquela”.
O uso do pronome demonstrativo “deste” serve para retomar outra passagem do texto, ou seja, faz referência ao impacto tecnológico; o pronome demonstrativo “daquela”, por sua vez, faz referência à alocação de novos recursos. Esse fenômeno, chamado anáfora, garante a coesão do texto e diz respeito a pessoas e objetos, tempos, lugares, fatos etc. mencionados em outros pontos do mesmo texto. Na questão, portanto, os pronomes “deste” e “daquela” exercem função anafórica (alternativa C).
Há casos, porém, em que os termos anunciam/antecipam outros. Por exemplo, na frase “Minha irmã disse isto: já está na hora de almoçar”, isto antecipa já está na hora de almoçar. Esse fenômeno é chamado de catáfora.
Na alternativa E, vemos a função dêitica. Você já ouvir falar nisso? Conforme explicação do prof. Rodolfo Ilari/Unicamp, em seu livro “Introdução à semântica: brincando com a gramátia”, chamamos de dêiticas as expressões que se interpretam por referência a elementos do contexto extra-lingüístico em que ocorre a fala. A dêixis diz respeito principalmente às pessoas que participam da interação verbal, ou a lugares e tempos que são localizados a partir da situação de fala. Ela realiza uma espécie de “ancoragem” da fala na realidade. Ocorre sobretudo por meio dos pronomes, dos artigos, dos tempos dos verbos e de certos advérbios.
Para entender a importância dessa “ancoragem”, convém imaginar a dificuldade que teríamos para entender de quem partiu um pedido de socorro trazido pelo mar numa garrafa fechada, sem data, sem referência a lugares e assinado por um desconhecido (Ilari, 2001).
Um outro exemplo: imagine que você trabalhe em uma empresa e está ansioso por uma reunião que ainda deve acontecer. Está tão ansioso que alguns colegas até sabem disso. Antes de a esperada reunião acontecer você é convocado para fazer uma viagem, também pela empresa. Após 4 dias fora, ao entrar em casa, no final da manhã, encontra o seguinte bilhete próximo à porta de entrada:

A questão é: Quem esteve em sua casa? Em que dia esteve? A reunião já aconteceu ou não?
Tais perguntas surgem, portanto, porque “estive” e “hoje” são expressões interpretadas deiticamente. O “hoje” do autor do bilhete pode ser diferente do “hoje” do destinatário. Sem a data no bilhete, por exemplo, você não conseguirá saber se a tão esperada reunião já aconteceu ou não.