Esse post é para quem se interessa por temas como “dislexia”, “erros de escrita”, “gramática”, “ortografia”, “diagnósticos de aprendizagem” etc. É muuuuuiiiiito bom!
Os erros nunca mais serão os mesmos para você!
Virtudes no erro - Sírio Possenti
(texto publicado no site http://terramagazine.terra.com.br)
Bisbilhotando comentários de leitores no blog do Nassif, encontrei a grafia “medilcridade” para “mediocridade” e achei que era um bom tema. A conexão imediata foi com o Alvará redigido por Gaspar de Seixas, em 1571, que o fez por ordem de Jorge da Costa (Iorge da Costa, está lá), liberando a edição de Os Lusíadas, muito instrutivo e até divertido para quem queira fazer observações históricas sobre escrita. A conexão foi imediata porque lembrei, em especial, as duas grafias imprimir e emprimir, sem contar, por exemplo, aja por haja, diãte por diante, declarão por declaram etc., “erros” que qualquer escolar pode cometer - e comete - hoje.
O cidadão comum escolarizado - mas, especialmente, um desses plantonistas da língua, que, na verdade, mal a conhecem, não por serem obtusos, mas por usarem instrumentos inadequados de análise - imaginará que esse comentador de blogs deveria estudar um pouco, para deixar de fazer mal à língua pátria. Mas o leitor mais curioso veria aí um indício, um fato que revela alguma coisa interessante sobre nossa língua. Afinal, o internauta certamente quis escrever direito, fazer boa figura, e, se errou, o erro deve ter uma explicação.
Vamos a ela: sabe-se que as vogais /e/ e /o/ sofrem um processo de alçamento em contextos átonos, tanto finais quanto pré-tônicos - por isso muita gente diz mininu, curuja e patu, porque as vogais em negrito são átonas, mas não diz cuco (e sim coco) nem cocú (e sim cocô), nem prito e voci (e sim preto e você) etc., porque agora as vogais destacadas são tônicas. Para resumir, os sons representados pelas letras (no caso, pelos fonemas) /e/ e /o/ “transformam-se” em i e u em contextos átonos, na fala da maioria dos brasileiros. Seguindo essa regra, nosso leitor provavelmente diria mediucridade, com u, embora a grafia legal seja mediocridade, com o.
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