Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

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Lei antifumo & compreensão

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita

Receite a lei anti-fumo”. Hã? “Receite” a lei? Como assim, receite a lei? Essas foram as curtas perguntas que vieram à minha mente, antes de o maquinista de um dos vagões do metrô de SP completar o enunciado, dizendo: “Não fume nas estações do metrô”. Interessante: somente consegui refazer minha hipótese sobre o que havia ouvido - “respeite a lei anti-fumo”, e não “receite a lei anti-fumo” -, após o maquinista ter completado o que começou a dizer. Pelo sentido do enunciado completado, pelo contexto da situação em que eu estava inserida (o fato de estar dentro de uma estação do metrô, o fato de saber sobre a proibição do fumo em ambientes fechados, o fato de conhecer os males que o cigarro causa etc.), pude concluir que havia me enganado a respeito da palavra “receite”. Percebi que o maquinista não havia falado “receite”, mas “respeite“.

Situações como essa, de não compreensão seguida de reformulação, são comuns em nosso dia-a-dia. Gostaria de ressaltar que isso não tem nada de patológico, mas nos mostra que o ouvir e o compreender são duas atividades inter-relacionadas e não isoladas.

Na Fonoaudiologia, é comum observarmos o uso de testes com frases ou palavras sem sentido. Quando investigamos os procedimentos de testagem do chamado Processamento Auditivo (PA), por exemplo, observamos que os pacientes são inseridos em uma cabina acústica, com tarefas que não fazem sentido e recebidas através de um fone; não existe, assim, uma situação significativa para ouvir o que se ouve, bem como para o exercício da linguagem, ou seja, não existe um contexto, não existe um interlocutor e o que se ouve não faz sentido.

Vale ressaltar que há afirmação na literatura sobre Processamento Auditivo de que os testes não avaliam a linguagem, porém, em relatórios clínicos de avaliação do PA, afirma-se, por exemplo, que o resultado do teste (alterado) pode ser um fator gerador de dificuldades de compreensão, de escrita, entre outras.

 Por desconsiderar a estreita relação entre audição & sentido/compreensão (afirmação que faço tendo em vista os “N” aspectos envolvidos no compreender), qual será a real validade dos testes de Processamento Auditivo para fins de avaliação e diagnóstico?

Para os pais

Este pode ser um material muito útil a professores, fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos e médicos. Para uma versão impressa, clique no link abaixo:
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Gripe Suína e terapia de linguagem

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita

Olhar para uma charge como essa e rir parece ser algo tão simples, óbvio nos últimos dias, não é mesmo? Só parece, pois, conforme já dissemos outras vezes aqui, para interpretar uma charge precisamos mobilizar diversos conhecimentos que não estão explícitos no texto (na charge).

Muitas vezes, algo que fazemos com tanta rapidez, como atribuir sentido a essa charge e rir dela, pode se tornar difícil para pessoas que sofreram um AVC - Acidente Vascular Cerebral - (derrame), que tenha comprometido o nível semântico da linguagem, por exemplo (alterações chamadas de afasias).

Por isso, charges podem ser materiais preciosos na avaliação de linguagem de pessoas que sofreram um AVC. Não somente para avaliação, mas também para terapia com afásicos*.

*Em linhas gerais, afásicos são aqueles com alterações de linguagem em decorrência de uma lesão cerebral.

Se você é fonoaudiólogo e trabalha com afásicos, fica aqui a minha sugestão de material a ser utilizado. Além disso, fica também o convite para que você nos conte como foi trabalhar com charges nas sessões terapêuticas.

Como a fonoaudiologia tem atuado em relação à linguagem?

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita, Dislexia

Muitos que visitam o “A Escrita nas Entrelinhas” ainda não sabem que, antes de eu estudar Linguística (fazer o mestrado), minha formação de graduação foi em Fonoaudiologia. Um dia irei contar como se deu minha busca pela Linguística, mas posso adiantar que ela partiu de uma inquietação. Muito me incomodava a maneira como a Fonoaudiologia avaliava (e ainda avalia) e diagnosticava (e ainda diagnostica) os pacientes com alterações de linguagem decorrentes de acidentes vasculares cerebrais (AVC’s), por exemplo, e aqueles com queixas de dificuldades de leitura e escrita, não oriundas de doenças orgânicas. Diante desse incômodo, passei a ler textos escritos por linguistas, graças a Deus.

A Fonoaudiologia tem atuado, ainda, de maneira muito superficial em relação às questões de linguagem: não consegue interpretar os fatos de linguagem; interpreta o “erro”, não raras vezes, como sinal de patologia, atribuindo um diagnóstico - de dislexia, de distúrbios de aprendizagem, de desordem do processamento auditivo etc. - sem saber o que, de fato, está diagnosticando. Como é possível que muitos (não todos) fonoaudiólogos falem em “dificuldades de leitura”, se desconhecem os complexos processos linguísticos envolvidos no ato de ler? Acostumados a ler somente textos produzidos pela área da saúde, aceitam tudo o que é dito, sem buscar na educação e na Linguística explicações plausíveis, resultantes de longos anos de estudos e pesquisas. (Não busquem, talvez, pelo esforço intelectual que as leituras dos textos dessas áreas demandam).

Como podem afirmar “problemas de compreensão” se, para muitos, qualquer não compreensão é sinal de dificuldade do sujeito supostamente avaliado? Se desconhecem, por exemplo, os N fatores que devem ser mobilizados para que a interpretação seja possível? (sobre tais fatores, sugiro ver alguns exemplos no blog). Isso tudo sem contar, ainda, a concepção de cérebro que está implicada nesse tipo de afirmação. Nem vou falar sobre isso agora.

Por que não aprendemos a investigar os fundamentos dos “erros” em vez de considerá-los como indício de problema neurológico? (Leia o post “virtudes no erro”). Por que não aprendemos a trabalhar, quando necessário, sobre os textos daqueles que nos procuram?

Oficina sobre escrita - parte do material utilizado

Os slides aqui apresentados foram disponibilizados durante uma oficina que ministrei no mês de fevereiro deste ano.
Nela os participantes foram instigados a pensar na escrita a partir do sentido do que escrevem, considerando que um texto não é um amontoado de frases dispostas umas após outras. Em uma troca constante entre participantes e professor, a oficina não teve como propósito dizer “isso é certo” ou “isso é errado”, mas sim, identificar as dificuldades daqueles e intervir sobre elas. Nessa intervenção, importou que os participantes refizessem suas hipóteses de escrita, elegendo a melhor forma para dizer/escrever algo. Puderam, assim, perceber que a escrita de bons textos não se restringe aos aspectos gramaticais e/ou ortográficos. obs: os slides representam apenas uma parte do material entregue.

A Escrita: do ensino fundamental à vida profissional

Certamente, as dificuldades que diversos profissionais têm para escrever não tiveram início somente agora, no exercício da profissão. Muitas vezes, pequenas dificuldades observadas nas séries iniciais, próprias de quem está aprendendo a escrever, são arrastadas no tempo… O aluno “passa de ano”, mas o seu texto não passa. E assim vai por todo o ensino médio, superior…

Clique nessa figura para ver o histórico que geralmente encontramos:

Cursos na Editora Segmento

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita

A Editora Segmento oferecerá três cursos no mês de janeiro. Veja os temas:
- Oficina para revisor;
- Análise e planejamento de textos;
- Revisão gramatical avançada.

Clique para ver o anúncio completo:

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Processamento Auditivo: ouvindo outras fontes

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita

O que tem sido entendido por “compreensão” nos textos escritos por fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e neurologistas? Há algo a ser questionado em relação às associações feitas entre Desordem do Processamento Auditivo*e Linguagem (Auditory Processing Disorders and Language)? O que um histórico sobre os testes de processamento auditivo “revelam” sobre sua validade para fins de diagnóstico?

Essas são algumas questões que apresento em um capítulo de um livro ainda não publicado (não sei qual será seu título). Ainda assim, gostaria de compartilhar um pedacinho do texto (quem sabe… dois) com aqueles que têm uma “pulga atrás da orelha” sobre o tema, mas que ainda não tiveram coragem de escrever sobre. Na verdade, gostaria de já publicar as 22 páginas que escrevi, mas não posso, óbvio.

Homens e mulheres de toda a terra são dotados de um patrimônio comum: um mesmo conjunto de estruturas e funções cerebrais (MECACCI, 1987), mas com uma variada organização funcional, conforme as diferentes experiências que vivenciam. A organização funcional do cérebro está, pois, estritamente relacionada aos aspectos culturais e sociais. Aplicando-se esse fato à percepção dos sons e à compreensão do que ouvimos, observa-se que as percepções e compreensões de uma pessoa podem não ser equivalentes às de seu interlocutor, considerando-se que muitos fatores - os sistemas de referência, o contexto, o conhecimento partilhado entre os interlocutores, o conhecimento de mundo, etc. - estão em jogo na tarefa de compreender, conforme alguns exemplos expostos neste capítulo. Em um deles vimos que o enunciado “açúcar mascavo”, dito pela mãe de duas crianças, foi entendido como “açúcar mais caro”, por uma delas, e como “açúcar mascado”, por outra, pois a palavra “mascavo” ainda não faz parte do sistema de referências de tais crianças em processo de aquisição da linguagem. Compreender, portanto, não é decodificar e, durante a audição, sempre haverá a busca pelo sentido. Não sendo a compreensão uma mera decodificação, não separamos, pois, a linguagem da percepção/audição; não separamos as experiências que vivenciamos do que percebemos via audição.

(…)
Toda afirmação que envolve linguagem e cérebro de um sujeito particular requer cuidadosa análise, levando em consideração a complexidade de ambos. A falta de conhecimento sobre o complexo funcionamento da linguagem, bem como sobre a dinâmica da atividade cerebral por parte de profissionais da saúde, pode levar a afirmações equivocadas a respeito das crianças que aprendem, o que traz conseqüências para a vida delas e de seus pais (…).

*Para quem ainda não ouviu falar sobre o assunto, Processamento Auditivo é um tema difundido entre profissionais da área de saúde e educação, e tem sido relacionado à escrita, à leitura etc. De que forma? Alguns testes (de processamento auditivo) são aplicados e, dependendo das respostas recebidas, os sujeitos sob teste recebem o diagnóstico de desordem do processamento auditivo. Tal diagnóstico acaba justificando, não raras vezes, as supostas dificuldades de escrita e/ou compreensão/interpretação. Falando assim parece que é simples… parece que não há muitos problemas com isso… Será?

Vale ressaltar que a escrita do capítulo somente foi possível pelos conhecimentos adquiridos no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, instituição em que cursei o Mestrado na área de Neurolingüística, sob orientação da profª. Maria Irma Hadler Coudry (Maza). Mais uma vez, Maza, obrigada!

Uma informação da autora deste blog

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita

Olá, pessoal! Desculpem-me por não ter postado nada nos últimos dias. Estava de licença médica… cuidando da saúde. Mas hoje mesmo retomarei os posts, ok! Há muitas coisas legais vindo por aí.

Abração. Carla. 

Questão comentada - AFRF/2005 - ESAF

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Para responder à questão, o candidato deve entender as relações de sentido estabelecidas entre as partes do texto, o que pode ser visualizado através do seguinte esquema:

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a) Correta. As relações em dois sentidos dizem respeito ao modo como a comunicação eletronicamente mediada (modo de informação) desafia, e ao mesmo tempo reforça, os sistemas de dominação.

b) Correta. A reconfiguração da linguagem constitui sujeitos fora do padrão do indivíduo racional e autônomo. Esse indivíduo, também familiar e moderno, é deslocado em favor de um que seja múltiplo, disseminado e descentrado. Essa é a reconfiguração dos sujeitos sociais, mencionada na alternativa.

c) Correta. O autor do texto diz que o sujeito múltiplo, disseminado e descentrado é interpelado continuamente como uma identidade instável.

d) Correta. Em minha opinião, a banca extrapolou a relação de sentido estabelecida pelo autor do texto. O autor, nas linhas 14, 15 e 16 diz que “essa instabilidade coloca tanto perigos como desafios que se tornam parte de um movimento político”. Portanto, são os desafios e perigos que se tornam parte de um movimento político, não a instabilidade como exposto na alternativa. Passemos, então, para a próxima alternativa.

e) Errada. Os perigos e desafios, o movimento político, bem como a condução a um desafio fundamental às instituições e estruturas sociais modernas são itens tratados pelo autor como tendo relação com a identidade instável do sujeito múltiplo, disseminado e descentrado. A instabilidade mencionada na linha 14 (”essa instabilidade”) é a do sujeito múltiplo, disseminado e descentrado. O texto também não falou em desafio dos fundamentos das instituições, mas em desafio fundamental, o que é bem diferente.

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Vincius Vasco: Hahahah. Pobre moleque. Gramatica, estática ou elástica, não há prática enfát...
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virginia: As cadeias já estão super lotadas;com a redução da maioridade penal ficará de fora os...
virginia: Boa noite professora!A charge acima citada sobre redução da maioridade penal;expressa...
marluci m do rosário: Sou estudante do curso de Letras na ufpa(pará). Estou no início do curso,mas mudando...
Carla Queiroz Pereira, mestre em Lingüística/área Neurolingüística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem escrita a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões lingüístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br