Tem gente que sabe dizer o que quer escrever, mas só consegue dizer; tem gente que escreve para o leitor adivinho; tem aqueles que acham difícil organizar as informações; há ainda os que escrevem, não convencem, e pensam que o texto ficou ótimo; outros tentam impressionar com palavras “difíceis”. É... escrever um bom texto não é fácil. Mas tem gente que aprende a escrever melhor, seja um relatório, projeto, e-mail para tratar de negócios ou um simples bilhete.

“Mamãe, eu queriO…”

por Carla Pereira em Lingüística & Língua Portuguesa

As falas das crianças nos surpreendem, nos passam rasteiras, nos questionam. Elas estão cheias de honestidade, de percepções surpreendentes, de intuições filosóficas, de questões teológicas, de verdades existenciais, de críticas à vida adulta, de sentimentos, de poesia (Rubem Alves).

Veja esta preciosidade:

O filho, de 4 anos, diz para sua mãe:
- Mamãe, eu queriO…
A mãe interrompe e diz:
- Filho, não é queriO, é queriA.
- Mamãe, eu sou menino! Menino não fala “obrigadO?”, e menina não fala “obrigadA?”. Então, eu queriO, responde o filho com expressão facial de quem dizia para sua mãe que ela não sabe das coisas.

—————————————————————————————————–
Mais uma:

A tia queria explicar para a sobrinha, de 3 anos, que Deus quer morar dentro das pessoas. A sobrinha, rapidamente, solta uma gargalhada irônica e desconfiada, dizendo:
- Então quer dizer que nós somos uma casa!?.

Falas inesquecíveis como essas precisam ser registradas, não é mesmo? Obrigada, Ana Carolina e Regina Maria, por compartilharem as falas de seu filho e sua sobrinha, respectivamente.

Outras falas também estão registradas no livro “Me dá o teu contente que eu te dou o meu”, organizado por Cristina Mattoso, Editora Verus. A leitura é deliciosa!

Alguém me livre da cópia!!!

por Carla Pereira em Diário de uma estudante

Acabei de inaugurar uma nova categoria para o blog: “Diário de uma estudante”. Trata-se de um espaço aberto para que alunos do ensino fundamental e médio escrevam suas experiências na escola! Hoje, quem escreve é a Lídia, uma garotinha amante dos livros (ver o seu relato no post “Amo ler”, categoria “sensações de quem escreve…”), de livrarias e boas bibliotecas.
Ela tem muita história para contar, e, por isso, escreverá muuuuuuuuiiiitos outros textos no Diário!

Olá gente! Sou eu de novo, a Lídia. Tudo bem? Agora já tenho 11 anos, estou na 5ª série e estudo em um colégio de São Paulo. Estou escrevendo pra falar sobre a cópia. Tenho professores que só mandam os alunos fazerem cópia. É um horror!!!
Eles falam: “Vamos copiar a página 136 agora!!
É uma sensação horrível… já estamos cansados e a professora manda fazer cópia, não é nada legal. Não dá para aprender, mas os professores insistem na cópia. Eu acho que é uma maneira de deixar os alunos quietos…, sempre a mesma coisa, todo santo dia. Como eles querem que a gente aprenda, se não ensinam de uma maneira diferente… de uma forma legal e interressante?

Prova CESPE - PGE/PA

Comparando-se o texto com a figura acima apresentada, é incorreto afirmar que ambos abordam
A) a associação da infração à lei com as tecnologias atuais.
B) a total indiferença dos que assistem a um delito praticado na rua.
C) formas de controle dos indivíduos.
D) outra face das novas tecnologias.

Dê sua resposta e tente justificá-la com base na charge apresentada!!!

Um desabafo e uma esperança - parte II

… continuação da parte I

Escrever ainda não é confortável e prazeroso, mas, sem dúvida, hoje é mais do que ontem. Continuo utilizando inúmeros contratempos para procrastinar o momento da escrita. Por quê? Qual o sentimento que aparece nessas situações? Sentimento de incapacidade….falta de criatividade… falta de imaginação….palavras que desaparecem…

Depois de compreender o incrível processo da escrita, pude concluir que escrever um bom texto realmente não é fácil; temos que partir de reflexões profundas sobre o que se pretende escrever e organizar as informações de forma coerente. Fico feliz por ter conquistado tal etapa. Agora é pensar, escrever e reescrever!!!”

Um desabafo e uma esperança - Parte I

As consultorias em linguagem escrita envolvem muitos aspectos: reflexão sobre o que é escrever um bom texto; trabalho sobre os aspectos textuais; reflexão sobre o papel da escola; questionamento sobre a forma como foi ensinado no passado, na escola; angústias; enfrentamento das dificuldades etc.

Em relação a alguns desses aspectos, veja o texto escrito por uma profissional para quem presto consultorias:

Hoje estava cansada de procrastinar a minha escrita e parei para pensar… Na infância, nunca fui incentivada a escrever textos com base na minha experiência de vida ou com base na minha imaginação. Meus professores ficavam mais preocupados em corrigir as questões gramaticais, ao invés de questionar as razões pelas quais eu havia decidido sobre aquele determinado assunto, sobre determinado argumento ou até sobre os movimentos de reflexões que havia feito para interligar as minhas ideias. Pensar! Simplesmente pensar!!

Um dos pontos mais importantes que deveria ter desenvolvido na época, mas que hoje estou desenvolvendo, é a organização das ideias e dos argumentos. Quais argumentos deverei selecionar? Quais argumentos são mais importantes na ordem cronológica? O que é importante escrever na introdução que me permitirá fazer as conexões necessárias?”

… continuação na parte II

Comentário de uma charge

Olá, pessoal!

Há algum tempo postei esta charge. Eis aqui meus comentários enviados àqueles que se propuseram a explicar a interpretação dada por uma profissional de Comunicação Social, isto é, de que a mulher ilustrada na charge não sabia o significado da palavra penhor e, por isso, levou o arroz para ser penhorado:

Assim como as piadas, as charges são textos humorísticos que requerem a mobilização de conhecimentos prévios para que seja possível a interpretação. Que conhecimentos prévios são esses? Conhecimentos de fatos que circulam na sociedade, de questões culturais e ideológicas etc. Um exemplo: na piada “feliz foi Adão que não teve sogra”, NÃO HÁ COMO INTERPRETÁ-LA E RIR DELA sem o conhecimento de quem foi Adão, na história (o primeiro homem), de quem foi Eva (a primeira mulher), de que sogra é a mãe da mulher ou do homem com quem se é casado e, ainda, de que ter sogra, em nossa cultura, é algo ruim. UFA!!!
Esse simples exemplo (que não é um texto simples) nos mostra que a linguagem não é um código. Na piada, os sentidos foram veiculados, mesmo sem estarem codificados, entende? Conceber a língua como um código é assumir que o conteúdo semântico está integralmente explicitado por estruturas sintáticas (Coudry & Possenti, 1993), o que não é verdade. Mas isso é um papo para depois, ok!? Continuemos na charge…
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E - S - C - O - N - J - U - R - A - T - Ó - R - I - O ou E - X - C -O - N - J - U -R -A -T -Ó -R -I - O?

Essa palavra do título se escreve com S ou com X? Aliás, você já conhecia essa palavra?

Sem dúvida alguma, não deixa de ser importante e uma forma de incentivo a participação de crianças e adolescentes em concursos de soletração de palavras, tal como ocorre no “Caldeirão do Huck”. Particularmente, gostaria de parabenizar os vencedores da eliminatória de ontem, sábado, e aqueles que, em função do tipo de tarefa proposta, foram eliminados. Parabéns a esses também, claro, afinal, só “erraram” onde a língua permite. Como assim?

Os erros de grafia têm uma natureza: a relação entre letras e sons. Ortograficamente escrevemos, por exemplo, “exceção”, mas podemos escrever de outras maneiras usando o sistema de escrita alfabético (baseado nas relações entre letras e sons do nosso sistema ortográfico).

Sons diferentes podem ser representados por letras iguais (ex: cenoura, casa etc.), e um mesmo som pode ser representado por diferentes letras (ex: você, nosso, poço, paz, sapo etc.). Essa regra não seria diferente para a palavra “eSconjuratório”, mencionada no referido programa, soletrada como E-X-C-O-N-J-U-R-A-T-Ó-R-I-O por um dos participantes, Daniel Coutinho (MG).

Interessante ressaltar que “dificuldades em acertar a ortografia não são nenhum privilégio dos alunos, nem uma questão de alfabetização” (…). Certamente, quem lê muito e escreve bastante, com o tempo, passa a ter cada vez menos dificuldades em escrever ortograficamente” (Cagliari & Cagliari, 1999). No caso de palavras como “esconjuratório”, de pouco uso, a dificuldade poderá ainda existir, inclusive entre aqueles que têm bons hábitos de leitura/escrita.

Por tais razões, muito me chamou a atenção o tom de voz de repreensão do professor que lá estava presente, ao corrigir o participante: “Esconjuratório é com ‘S’ e não ‘X’”. O aluno, quando “erra” a grafia de uma palavra, não pode sofrer qualquer espécie de punição por isso; não se pode dar à ortografia tamanha ênfase, afinal, acertar a grafia não quer dizer competência para escrever bons textos. Já a prática constante de escrever (e ler), isso sim, garante a escrita de bons textos e, consequentemente, maior domínio da ortografia.

Gripe Suína e terapia de linguagem

por Carla Pereira em Diagnósticos & Escrita

Olhar para uma charge como essa e rir parece ser algo tão simples, óbvio nos últimos dias, não é mesmo? Só parece, pois, conforme já dissemos outras vezes aqui, para interpretar uma charge precisamos mobilizar diversos conhecimentos que não estão explícitos no texto (na charge).

Muitas vezes, algo que fazemos com tanta rapidez, como atribuir sentido a essa charge e rir dela, pode se tornar difícil para pessoas que sofreram um AVC - Acidente Vascular Cerebral - (derrame), que tenha comprometido o nível semântico da linguagem, por exemplo (alterações chamadas de afasias).

Por isso, charges podem ser materiais preciosos na avaliação de linguagem de pessoas que sofreram um AVC. Não somente para avaliação, mas também para terapia com afásicos*.

*Em linhas gerais, afásicos são aqueles com alterações de linguagem em decorrência de uma lesão cerebral.

Se você é fonoaudiólogo e trabalha com afásicos, fica aqui a minha sugestão de material a ser utilizado. Além disso, fica também o convite para que você nos conte como foi trabalhar com charges nas sessões terapêuticas.

Escrita & dor

Em um atendimento desta última semana, ouvi o seguinte relato:
Carla, tenho medo da dor. E, para mim, escrever é dolorido(…). Mas escrever junto com você tem me ajudado”.

Tenho pensado muito na importância da escrita conjunta, aquela em que atuamos/intervimos no momento em que a escrita do outro acontece; no instante em que o texto é produzido. No caso dessa profissional, a escrita realizada dessa maneira lhe proporciona maior tranquilidade e segurança. A escrita conjunta também minimiza a sua dor.

Leitura: o prazer de descobrir o prazer

Não posso deixar de compartilhar a maravilhosa experiência de uma visitante do “A Escrita nas Entrelinhas” e seu relato feito a mim. Veja o que ela escreve sobre sua relação com a leitura, no passado, quando criança e jovem, e como tem descoberto, hoje, já adulta, o prazer nas letras que falam!

Sempre encarei a leitura como uma obrigação, uma necessidade imposta pelo mundo, pela escola, mas estou percebendo que a proposta da leitura não é esta.

Estou trabalhando em um Projeto Cultural e neste mês vamos trabalhar com declamação de poesias. Você sabe que nunca fui amante de poesias, talvez por nossas escolas terem trabalhado conosco aquelas poesias chatas (ou que nos eram ensinadas de maneira desinteressante), que eram apenas sobre acontecimentos históricos e cheias de palavras rebuscadas, daquela época; enfim, poesias que não tinham identificação conosco. “!

Hoje, lendo algumas poesias, senti um prazer tão gostoso que passei a dar mais valor à leitura. É…esta leitura nos desperta para outro mundo, tira a gente da rotina, do foco. Torna-nos, então, participantes dela e não apenas pessoas que “assistem” a um texto ou outro, sem lê-lo de fato, sabe como? E foi por isto que também me senti motivada a entrar em seu blog e escrever para você. Parece uma simples experiência, mas para mim, acho que não. Quero daqui pra frente “achar mais tempo” para a leitura e para a escrita. É muito bom para nós. Espero, com estas palavras, ter contribuído, de alguma forma para o seu blog. Para fechar, deixo também três poemas que gostei bastante de lê-los. Quem sabe você acha um espaço no blog para um deles

Sua experiência foi muito rica! Obrigada pela preciosa contribuição! Lendo os três poemas enviados, não tive dúvidas: vou publicar os três!

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Carla Queiroz Pereira, mestre em Lingüística/área Neurolingüística pela Unicamp, presta consultoria em linguagem escrita a profissionais e estudantes, ministra palestras e cursos com temas voltados às questões lingüístico-cognitivas e prepara candidatos a concursos públicos para enfrentarem as questões de interpretação de texto.

carla@aescritanasentrelinhas.com.br